• Cecilia Leite

As chaves vegetais


Ainda dentro do tema do último artigo "A Linguagem das Plantas" , aqui vamos tratar mais especificamente dos óleos essenciais, a alma das plantas na Alquimia.


Os óleos essenciais podem ser obtidos de diversas formas, mas são, em sua maioria, extraídos a partir da destilação do vegetal. A destilação é um processo alquímico, que separa o sutil do bruto, a essência do corpo da planta. Existem vários tipos de destilação, mas aqui vou descrever em linhas bem gerais, apenas para enfatizar o simbolismo contido no processo. Ele acontece na presença dos quatro elementos: o fogo que aquece a água, que evapora no ar, e cujo vapor extrai as partículas voláteis da terra (o vegetal), arrasta essas moléculas, que, ao resfriarem em contato com a superfície fria do condensador, se liquidificam novamente, e como produto temos um hidrolato (uma espécie de água floral da planta) e uma fina camada de óleo essencial.


Esse processo pode ser equiparado a nossa jornada terrena, onde, através do domínio dos quatro elementos, vamos nos lapidando e separando de nossa essência as densidades que não são parte de nosso Eu verdadeiro. Os quatro elementos estão ligados a mente (ar), emoções (água), corpo (terra) e espírito (fogo), e em nossa caminhada nos deparamos com desafios nessas esferas, que vão nos conduzindo, aos poucos, a um melhor entendimento até atingirmos a mestria de cada elemento. Somos purificados pela ação dos quatro elementos.


O óleo essencial é, portanto, o produto dessa lapidação no vegetal. Podemos dizer que é o "coração" da planta. Ele tem uma altíssima concentração de componentes químicos, sendo por isso potentíssimo, e exigindo cautela e critério em sua utilização. Apesar de não ser correta essa comparação, já que trata-se de produtos diferentes, com composições diferentes, e cada planta possui características únicas, apenas para ilustrar, podemos dizer que uma gota de óleo essencial pode ter a potência de até 30 xícaras de chá de um determinado vegetal. Isso dá a dimensão do poder desses compostos.


Outra coisa a levar em consideração é a quantidade do vegetal necessária para extrair uma única gota de óleo essencial, tendo em vista que a concentração de compostos aromáticos é diferente em cada espécie. Por exemplo, para se obter uma gota de óleo essencial de gerânio são necessários 20g de folhas; para se obter um litro do óleo da rosa são necessários 3500kg de suas pétalas! Isso mostra a nobreza desse material e o respeito que devemos ter com ele, até mesmo por uma questão ecológica. É necessário compreender profundamente o que representa uma gota de um óleo essencial! E honrar e respeitar o seu uso!


Eles possuem diferentes formas de utilização e podem absorvidos por duas vias: dérmica e olfativa. Para ser absorvido pela pele, é necessário um veículo de diluição, normalmente um óleo vegetal, creme ou gel. Para a inalação podem ser utilizados tanto difusores (ou mesmo sprays) de ambiente como aromatizadores pessoais, ou seja, o uso pode ser coletivo ou individual. A atuação dos óleos pode acontecer, portanto, a nível físico, já que são compostos químicos com inúmeras propriedades terapêuticas, mas também a nível energético, emocional e mental, como estuda a psicoaromaterapia. Nesse texto vou enfatizar essa última linha de ação.


O olfato é o nosso mais primitivo sentido, e está diretamente ligado ao sistema límbico, que é o nosso cérebro emocional, a porção dele que acumula nossas memórias, de prazer ou de dor, traumas, e questões que não devem vir a todo momento para o nosso consciente para não atrapalhar a nossa vida. No entanto, essa parte do cérebro está ligada ao sistema de alarme e defesa do nosso corpo, e aciona diretamente o sistema nervoso autônomo, que possui os ramos simpático e parassimpático, que determinam nossas reações orgânicas para relaxamento ou para estados de luta ou fuga. Ou seja, o olfato ativa em nós reações automáticas, que são desencadeadas pelas lembranças (inconscientes) das nossas experiências que estão guardadas em nosso sistema límbico. Vivemos, temos marcas e traumas, e nosso corpo guarda uma memória com a instrução de quando ele pode relaxar e em que situações ele precisa estar a postos porque corre perigo. Todas essas reações são automáticas, não passam pelo nosso córtex cerebral, não tomamos uma decisão consciente com relação a elas, e desencadeiam em nosso corpo uma série de reações físicas para que ele possa se defender. Assim, em caso de stress, esse comando aumenta a pressão sanguínea, retira o sangue da superfície (da pele) para que ele supra as necessidades orgânicas, retira a energia da digestão e da parte sexual para que sobre energia para "fugirmos", aumenta o ritmo cardíaco, enfim, uma série de respostas que terão consequências fisiológicas a longo prazo. Da mesma forma, um aroma pode desencadear uma instrução para que o corpo relaxe.


Assim, quando utilizamos um óleo essencial via olfato, ele vai atuar diretamente em emoções que nem sabemos que carregamos. E vai trazer respostas psíquicas e físicas para processos que nem temos a consciência que estão em andamento.


Além disso, os óleos essenciais possuem vibração muito alta, e elevam a frequência dos nossos órgãos. Cada planta tem afinidade energética com alguns órgãos e seus óleos, quando utilizados corretamente, podem trazê-los de volta para o equilíbrio. Como sabemos cada órgão e víscera do nosso corpo tem conexão com um tipo de emoção. Então a utilização dos óleos essenciais sempre irá atuar em todos os nossos corpos, dos mais sutis ao físico, o mais denso, pois tudo está interligado, não tem como dissociar.


A aromaterapia (terapia que se utiliza dos óleos essenciais) oferece várias ferramentas, utilizando-se de veículos e concentrações diferentes. Uma forma que eu gosto muito, por ser mais segura, mas com resultados extremamente eficazes, é a utilização frequencial, que considera a vibração dos óleos, utilizados em baixíssimas concentrações. O que interessa nessa forma de utilização é a informação do vegetal que é transferida para nosso sistema.


Uma coisa muito importante de ressaltar é que as moléculas aromáticas fazem parte do metabolismo secundário da planta, e constituem um mecanismo de defesa ou de sobrevivência da mesma. Ou seja, elas produzem esses compostos para atrair polinizadores, afastar os predadores, se proteger de alguma condição adversa. Tanto é assim, que uma planta que não passa "stress" é menos aromática do que outra que teve que suportar condições extremas de temperatura ou ataques de seja lá o que for. E, novamente podemos traçar um paralelo conosco. O nosso dom e o nosso melhor perfume muitas vezes não aparecem em condições demasiadamente tranquilas, mas sim quando somos submetidos a alguma situação que nos exija a superação.


E também devemos perceber que, o que a planta nos oferece como elixir para a cura é o resultado de um processo que ela precisou passar para se curar, ou se fortalecer. Ou seja, ela doa para nós o potencial de uma questão já trabalhada por ela. Como mencionei no texto A linguagem das plantas, os óleos essenciais de algumas resinas (como a Mirra por exemplo), que nos cicatrizam interna e externamente, que tratam a nossa pele e nos ajudam a delimitar nossas fronteiras, são fruto da própria cicatrização da árvore quando sua casca foi ferida. E assim acontece com cada planta que quisermos estudar, cada uma tem a sua qualidade particular a oferecer para o mundo.


De cada planta extrai-se o óleo essencial de uma parte diferente, desde a raiz até os caules, folhas, frutos e flores. Algumas plantas nos fornecem óleos de diversas partes, como é o caso da laranjeira: da flor se tem o Néroli (óleo caro e nobre), da casca do fruto obtém-se o óleo de Laranja, das folhas o Petitgrain. Cada um com uma composição diferente, um uso diferente, uma vibração diferente. E aqui podemos perceber como a natureza é perfeita, pois o óleo essencial de Laranja, que é muito mais abundante (e portanto mais acessível), é um óleo com menos restrição de uso, podendo ser utilizado de maneira mais abrangente que o óleo de Néroli, que deve ser utilizado com bastante parcimônia. Óleos nobres, de vibração muito alta, não devem ser desperdiçados. Ao extrair o óleo da flor da laranjeira, não damos chance do fruto nascer, e o que se extrai de um fruto da laranja é muito mais do que de uma pequena florzinha. Portanto, para termos um vidrinho de óleo essencial de Néroli, deixamos de ter muitos vidros de óleo de Laranja, o que acaba sendo difícil para quem produz. Assim, o óleo essencial de Laranja será muito mais abundante e atenderá um maior número de pessoas. A natureza é perfeita, e nós deveríamos prestar mais atenção em suas mensagens!


Cada óleo essencial contém uma chave, um segredo, a ser decifrado por quem o utiliza. E isso não é somente uma figura de linguagem, já que as moléculas odoríferas se ligam a nossos receptores sensoriais através de uma ligação chamada chave – fechadura. Ou seja, para cada aroma (e são inúmeros) existe uma fechadura que irá reconhecer esse aroma e desencadear reações físicas e psíquicas. Cada pessoa tem uma constituição particular, memórias diferentes, dinâmicas energéticas diversas, e o óleo essencial vai atuar de maneira específica para aquele indivíduo. Então a atuação dos óleos poderá ser diferente em cada caso.


Importante ressaltar que óleos essenciais são diferentes de essências. A essência é sintética e não consegue copiar a complexidade das moléculas naturais, portanto não tem efeito terapêutico, e podem ser apenas um cheirinho gostoso. É preciso muito cuidado com a qualidade dos produtos que vamos utilizar, especialmente no caso dos óleos essenciais. Não podemos esquecer que são compostos químicos, que possuem várias contra indicações e só podem ser utilizados com a supervisão de um profissional habilitado.


Além do já exposto, vale ressaltar que óleos essenciais são maneiras extremamente eficazes de nos conectarmos com espaço tempo que não temos mais acesso facilmente. Eles nos trazem lembranças sim, mas também podem nos conectar com as florestas, com os campos, com a sutileza de uma flor. Através de um aroma podemos sentir um sopro quente, uma brisa suave, a terra molhada, o cheiro de chuva, inúmeras sensações podem ser despertadas. Conseguimos entrar na essência de cada erva, cada especiaria, cada flor e desfrutar da virtude que cada uma nos oferece. Conseguimos nos ligar a força de uma árvore secular, a alegria que as frutas proporcionam, a estabilidade que as raízes trazem. Cada gota de óleo essencial deve ser encarada como um tesouro oferecido pela natureza para a nossa cura!

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