• Cecilia Leite

No reino de Hades...


Quando o coração aperta, a respiração fica difícil, a garganta fecha, pode ser um indício de que estamos adentrando no reino de Hades... Lá no submundo, onde Plutão governa, vivem os mortos... Um lugar sombrio e misterioso onde as almas aguardam a sequência da sua viagem...


Mas podemos entender que durante a vida muitas mortes nos acontecem, e consequentemente, em alguns momentos da nossa trajetória, ficamos frente a frente com Plutão. Sentimos que somos como que tragados para as entranhas da Terra, para o escuro, sem conseguir vislumbrar uma saída. Podem ser momentos extremamente desafiadores, onde nada faz sentido, e a opressão toma conta de nós.


O encontro com as sombras normalmente não é fácil. E, justamente por isso, tendemos a evitá-lo a todo custo. Fugimos o quanto podemos, desviamos a nossa rota, mas, em algum lugar de nós, sabemos que esse encontro será inevitável. Sabemos que estamos sempre acompanhados daquela nuvem negra que insiste em nos rondar. E por mais distraídos, e até supostamente alegres que possamos estar, no fundo sabemos que o fantasma está a espreita. A felicidade não é completa. A paz na alma não existe.


E aqui cabe um comentário: cada um tem as suas assombrações, e não deve haver espaço para julgamento sobre os medos alheios. O que para um pode não significar nada, para outro pode ser aterrorizador. Toda dor merece nosso respeito. Quem conhece suas dores, grandes ou pequenas, não desfaz das questões alheias. Não se mede o tamanho do sofrimento pelo tipo de problema. Pessoas são diferentes, com sensibilidades diferentes, memórias diferentes, históricos de vida diferentes. Não existe escala de sofrimento, o que importa é que ele está lá, independentemente da sua origem.


Quem já esteve no Hades sabe que essa travessia não é fácil. Mas pode ser libertadora, para quem sobrevive. Não se passa ileso a uma dor profunda, ela remexe as vísceras, transforma o nosso corpo e a nossa mente. A sensação de desespero toma conta, e muitas vezes, nos defrontamos com a nossa própria morte. Podemos nos dar conta da nossa finitude, da impermanência das coisas, da fragilidade que se esconde por trás de uma suposta solidez. As nossas bases são arrancadas, e nos vemos sem chão. Sem ter onde nos apoiar, a única coisa que se mostra é o NADA, o vazio.


E nesse vazio percebemos que vivíamos uma vida sem sentido, que apostamos nossas fichas em coisas sem valor, que a realidade que julgávamos tão concreta na verdade não é tão certa assim. Parece que tudo nos foi tirado e ficamos sem referências, um profundo questionamento se faz necessário. E as respostas que surgirem poderão mudar o rumo das coisas para sempre. Depois de uma visita ao inferno, não se é mais o mesmo, nunca mais as coisas serão iguais.


E por isso resistimos, pois ao perder tudo, podemos não saber mais quem somos, nem para onde vamos, perdemos o controle da nossa jornada. O medo da dor da transformação é intenso, e por isso vamos resistindo. O desconhecido nos apavora. Mas ao nos entregar para o Mistério, abrir mão de qualquer expectativa, e confiar no processo da vida, o resgate acontece... A vida só consegue agir quando saímos da frente... Só quem perde o medo da morte começa a viver! E a vida nos empurra nesse sentido, porque o objetivo é nos libertar de nossos grilhões, soltar as amarras, para que se passe a viver plenamente.


Quando a dor chega assolando é sinal de que uma morte precisa acontecer, uma transformação deve entrar em curso... Provavelmente é hora de desapegar de alguma coisa, pessoa, situação, hábito... É momento de permitir que a renovação aconteça, e para isso vai-se o velho (ainda que seja um pedaço de nós), e entra-se o novo, normalmente imponderável e sem garantias. Se ficarmos presos na necessidade de segurança não haverá mudança. É necessário atirar-nos no abismo, nos lançar no escuro.


Um dos presentes que Plutão nos trará, talvez o maior de todos, é o poder. Quem venceu as trevas não tem mais nada a temer! Quem cruzou o seu próprio submundo não tem mais medo de ir a lugar algum! Portanto Plutão é aquele que traz a morte ou que dá a vida! E a verdadeira vida só acontece depois que aceitamos passar pelo processo da morte. É ele que transforma, que transmuta, que nos leva às profundezas para depois nos trazer para as alturas, imbuídos de nossa verdadeira força, donos de nosso próprio poder!


E não vamos nos enganar, pois só é capaz de ajudar o outro na sua trajetória pelas sombras, quem conhece os caminhos de Hades... Quem não encarou a própria escuridão não consegue guiar ninguém para luz. Há de se ter a compreensão do processo. Há de se conhecer o tamanho da dor envolvida, não importa qual o motivo. Há de se perceber que o sofrimento de cada um é legítimo. Há de se compreender a complexidade da jornada.


Mas dessa viagem voltamos transformados, purificados, e muito mais leves. Deixamos pelo caminho muita bagagem desnecessária. Sobra o essencial, e, nunca mais, nada será como antes. Uma vida nova nos aguarda, com o poder de Plutão nos acompanhando. Talvez muitos nem notem, como talvez não tenham notado tudo que aconteceu durante seu passeio pelas terras subterrâneas. Os processos plutonianos são silenciosos, acontecem nos recônditos da nossa alma. Plutão não gosta de palco, de visibilidade, é discreto e profundo. Só quem passa, sabe.


O processo é árduo, e nem sempre passamos ilesos por ele. Podemos tropeçar, entrar em desespero, depressão, pânico. Quanto mais resistirmos mais difícil será o trajeto. Um dos objetivos é aprender a entregar, soltar as rédeas, e perder o medo da dor. E aos poucos, às vezes aos trancos e barrancos, vamos aprendendo que o controle é uma ilusão, e que resistir a dor, dói mais do que se entregar a ela... E então deixamos doer... Lidamos com tudo que ela traz, o desconforto, o mal estar, e não morremos... E assim vamos entendendo o que é desapegar, deixar ir... E, ao final, Plutão sabe recompensar! O prêmio é uma vida muito mais cheia de significado e alinhada com o que é essencial... E, acima de tudo, o poder de quem perdeu o medo, de quem encarou a morte e sobreviveu, de quem deixou morrer e sobreviveu!


Que Plutão nos acompanhe! Esteja ao nosso lado em nossa travessia nos garantindo o poder dos sobreviventes! Afinal fugir não será uma opção... Como dizia Jung: "Ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas sim por tornar consciente a escuridão".

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