• Cecilia Leite

A nobre virtude da autenticidade

Esse texto foi encomendado por uma criaturinha extremamente autêntica. Na realidade, o pedido do meu filho caçula foi para eu escrever sobre a hipocrisia... E eu confesso que parei para pensar porque um menino de onze anos se incomoda tanto com esse tema... Para ele, a hipocrisia é algo que realmente aborrece, desde muito pequeno.


Ser autêntico deveria ser algo natural, que não exigisse esforço nenhum. Simplesmente SER... Mas não é assim que acontece. Muitas vezes estamos tão atolados em estereótipos ou caricaturas de nós mesmos, que chega a ser difícil reconhecer o brilho verdadeiro que se esconde por trás das máscaras.


Se prestarmos atenção, camuflar uma verdade, disfarçar um comportamento, fingir uma personalidade, demanda muita energia. E por que gastamos toda essa energia para tentar passar uma imagem daquilo que não somos? Na maioria das vezes fazemos isso para sermos aceitos. Achamos que não somos bons o suficiente sendo somente o que somos. Precisamos "melhorar" a realidade com todos os artifícios que encontramos... Começamos com uma boa maquiagem, um procedimento estético, uma mudança no cabelo, e vamos seguindo criando uma identidade que achamos que vai ser mais adequada. Nesse caminho podemos nos obrigar a gostar de coisas que em nada ressoam com a nossa alma, a falar coisas que achamos que os outros gostarão de ouvir, a frequentar lugares que acabam com a nossa energia... A lista é longa...


Com isso não estou querendo sugerir que não temos obrigações sociais, e nem que devemos fazer somente aquilo que estamos com vontade. Esse texto é justamente uma reflexão sobre os limites saudáveis que encerram essas fronteiras. A questão central é se temos a consciência do que estamos fazendo, ou se estamos enganando até a nós mesmos.


Ser autêntico também não é falar o que quer, ser mal educado, indelicado com os outros, impor seu ponto de vista. Isso é ser autoritário. A autenticidade está em mostrar suas reais intenções, sua maneira de pensar, respeitando o outro E se dando ao respeito. Ser autêntico é não mudar de opinião conforme o julgamento do outro, conforme a conveniência da circunstância. Também não é ficar preso em uma imagem ou em um conceito por orgulho, conforto ou acomodação. É expressar a cada momento a verdade daquele momento. É poder mudar de ideia, pois a vida anda, crescemos em consciência, mudamos de opinião e o que era verdadeiro para nós em uma época pode deixar de ser... E para manter a autenticidade é preciso saber ser fiel ao nosso interno, e seguir as flutuações que ocorrerão ao longo do processo.


Não é fácil ser autêntico na nossa sociedade que adora estabelecer padrões a serem seguidos. Todo mundo ganha um rótulo: quem estuda, quem não estuda, quem gosta de viajar, quem não gosta de viajar, quem vai a festas, quem não gosta de ir a festas... E, normalmente para estar adequado não podemos estar em um dos extremos. Temos um modelo ideal a ser seguido, que envolve ser bonito, bem sucedido, bom em esportes, descolado, viajado... Tem um script mais geral ligado à sociedade, mas tem também o individual, que cada um impõe a si mesmo...


Até inconscientemente, antes de aceitar (ou não) um convite, pensamos em todas as conveniências sociais, no julgamento dos outros, e muitas vezes esquecemos do principal: se queremos ou não estar lá. Precisamos avaliar o quanto esses mecanismos estão ativos em nós, porque quando atinge-se um certo limite, começa-se a haver hipocrisia.


A hipocrisia é o ato de fingir ter crenças, virtudes, ideias e sentimentos que na verdade não se possui. Oculta-se a realidade atrás de uma máscara de aparência. E essa hipocrisia pode estar escondendo problemas mais sérios, pois provavelmente estará atrelada a um mecanismo de defesa psicológico, para não se encarar dores mais profundas. Quase sempre existe uma baixa auto estima presente, com um sentimento de inferioridade. Mas pode ser que haja uma personalidade narcisista que precise ser sempre o centro das atenções e para isso faça qualquer negócio. Pode também ser um instrumento de manipulação psicológica para se conseguir objetivos que de outra forma se julgava impossível. Enfim, pode ser muita coisa...


Mas o importante é perceber que essa estratégia não traz conforto a alma. Pode trazer um alívio temporário, mas é muito cansativo e desgastante precisar manter uma estrutura que suporte a nossa mentira. Além do quê, se estamos vivendo fantasiados de algo que não somos, iremos atrair pessoas e situações na sintonia da fantasia. Ou seja, nossos relacionamentos serão com a máscara, e não com a essência, o que certamente não será satisfatório. Queremos alguém que nos ame como somos, mas fingimos ser outra coisa...


E como vemos essa questão no Mapa Natal? Não vemos... Tudo depende de como a pessoa vive seu mapa, como ela conduz e direciona a energia que tem disponível. O ideal é que todos fôssemos autênticos dentro do nosso mapa, ou seja, todos expressássemos o nosso melhor e mais pleno potencial. Mas estamos nos desenvolvendo, aprendendo e muitas vezes criamos estratégias para não ter que lidar com aspectos desafiadores da nossa personalidade. Mas ao conversar com alguém, analisando seu mapa, muitas vezes conseguimos perceber onde ele não está sendo autêntico, como está tentando driblar a sua vibração natural.


Manifestar a essência na sua mais pura forma é um tema do signo de Leão, regido pelo Sol. (Claro que meu filho que trouxe essa questão é leonino...). Esse signo tem a intenção de brilhar naturalmente, de deixar aparecer a real natureza interna. Por isso é um signo tão carismático, pois é o coração se expressando. E quando o Leão não acredita em si, como ele sente a necessidade de brilhar, pode cair na hipocrisia para tentar chamar a atenção para si. Ou seja, o mais autêntico, pode se tornar o mais hipócrita. Pois ser reconhecido e valorizado é uma questão central para ele, e ele irá conseguir de um jeito ou de outro. Se ele achar que não tem poder suficiente para brilhar, vai fingir que tem... Por isso não dá para dizer que um signo é assim, ou é assado. Dá para dizer que ele precisa de determinadas coisas que serão fundamentais para ele. E como ele vai consegui-las depende do seu caráter, da sua disposição interna. Um Leão em harmonia é extremamente autêntico, um Leão em desarmonia vai esconder sua baixa auto estima para continuar sendo o rei da selva. E só sabemos se esse Leão está equilibrado observando a maneira que ele vive...


Outro signo que facilmente cai nessa armadilha de tentar passar uma imagem daquilo que não é, é a diplomática Libra. Librianos (ou até mais fortemente quem tem a Lua em Libra) precisam ser aceitos de qualquer maneira e muitas vezes usam estratégias diversas para conseguir isso. Além disso, Libra detesta desavenças e faz qualquer negócio para não ter que se indispor com ninguém. Assim, esse signo muitas vezes se perde das suas reais necessidades e das suas legítimas opiniões porque coloca a dos outros antes das suas. A questão central de Libra portanto está em saber equilibrar as suas demandas com a dos demais, e a autenticidade passa a ser um tema central.


Ser autêntico pode ser realmente desafiador, porque além das cobranças, julgamentos e boicotes externos, tem-se que lidar com as questões internas, essas sim bastante difíceis. É necessário discernimento para não passar do ponto, consciência, lucidez, e muita coragem. Mas é libertador, pois a pessoa se alinha com as pessoas, situações e atividades que realmente fazem parte do seu caminho. Sua vida passa a ser preenchida por sentido e significado. É o que todo ser deveria almejar, ser o que realmente é.


Por isso, filho querido, esse texto é para você... Não só porque você pediu, mas porque você me inspira todos os dias com essa sua coragem de mostrar o que você é. E pagar o preço por isso. Preço às vezes alto para uma criança, que desde pequena tem a exata noção de quais são os seus limites. Mas que em nenhum momento deixa de ser verdadeiro com os outros e principalmente com você mesmo.



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