• Cecilia Leite

Quando nasce um bebê...


Quando nasce um bebê, nasce também uma mãe... E isso não é bordão publicitário... Tampouco uma frase de significado simples, muitas vezes romantizada e até superficial. O nascimento de um filho é um processo iniciático para a mulher, que deixa de ser a Deusa Donzela para se tornar a Deusa Mãe.


Para quem conhece a Deusa Tríplice da tradição antiga, ela se apresentava em três formas: como Donzela, como Mãe e como Anciã. São três arquétipos femininos de muita força. A Donzela é a mulher virgem, não no sentido sexual, mas como mulher autônoma e independente, que não precisa de ninguém, guerreira. A Deusa Mãe, que é fértil, nutridora, provedora, em todos os sentidos. E a Anciã, que é a que possui toda a sabedoria, a chave da vida e da morte.


Quando a mulher se torna mãe, ela deixa de ser o único centro de sua vida, e passa a ter uma referência externa: uma pequena figura, estranha a ela inicialmente, e dela totalmente dependente. Existe uma quebra, uma ruptura de um padrão interno já estabelecido. E isso não é um processo fácil.


Gestar e gerar uma criança é um processo mágico, milagroso, que muitas mulheres não conseguem perceber e apreciar, por conta da tamanha bagunça psíquica, hormonal e física a que ela é submetida. Formar, a partir do seu corpo um outro ser, ter um coração pulsando dentro de você, servir de instrumento para trazer um outro ser a vida, é uma missão lindíssima. Mas muda radicalmente a vida da mulher.


A partir do momento em que se descobre grávida, ela já não é mais a mesma. Além das evidentes mudanças em seu corpo, em seu humor, em sua fisiologia, qualquer decisão sua vai ter um impacto muito além do que havia antes. O que ela come, ou deixa de comer, o remédio que ela toma, ou não pode mais usar, os lugares que frequenta, e que agora talvez não sejam os mais adequados, os hábitos que ela tinha, e que agora certamente precisarão ser revistos... A gestação é um tempo de preparação da criança, mas também de preparação para a mulher. Ela de repente se vê confrontada com questões que antes podia nem suspeitar que existiam.


E, por mais que ela quisesse a criança (e pode nem ter sido assim...), ela começa a lidar com desconfortos e questões que trazem uma nova realidade para ela. Desde o mal estar físico, enjoo, inchaços, dores, problemas posturais, até o medo do desconhecido, a pressão de a partir de então se tornar responsável pela sobrevivência e orientação de um outro ser, tudo isso faz com que ela se recolha, volte suas energias para dentro para conseguir metabolizar tanta novidade, enquanto dá conta de gerar alguém dentro dela.


E as questões continuam se apresentando... Seu corpo muda, e ela sente insegurança com essa nova forma que ela não reconhece, tem medo do parceiro perder o interesse, incerteza em sobre como ela ficará depois do parto... E vem pensamentos sobre como será no trabalho, como será a situação financeira, como serão as noites que já se suspeita nunca mais serem iguais, como ficará o relacionamento com o pai... É um questionamento interminável, muitas vezes não suspeitado e não suportado por quem está perto.


A mulher que passará por esse rito iniciático precisa de apoio e preparo, e na maioria das situações, ela não tem nem uma coisa nem a outra. Infelizmente hoje a maternidade está banalizada, seja por negligência do seu aspecto sagrado, seja pela incapacidade de lidar com sua complexidade. Nem as próprias mulheres se dão conta da imensa responsabilidade que as esperam, e quando elas se vêem nessa situação acabam ficando desamparadas. Existe uma cultura que romantiza e simplifica a maternidade, e a mulher, quando se defronta com a realidade muito distante disso, corre o risco ainda de se sentir culpada, por não ser capaz de passar por esse processo com o glamour institucionalizado.


As dores do parto sinalizam essa mudança radical na mulher. Nada mais será como antes. Não tem como ser. Só passando por isso pra saber, e não tem como descrever. Cada uma, no recanto da sua alma, sentirá junto com toda a dor física, toda a dor emocional da morte de seu antigo ser. Ali, ela se despede da mulher que ela foi, e que terá que dar espaço para uma outra que está nascendo junto com a criança. E que também será uma recém nascida e requererá cuidados, carinho e atenção.


Mas, nesse momento, ela deixará de ser filha para se tornar mãe. E entenderá que mesmo tendo o acolhimento de quem a rodeia (e isso nem sempre acontece), sua postura não pode mais ser a mesma. Agora ela é MÃE. Ela tem que acolher, nutrir e proteger, antes de ser acolhida, nutrida e protegida. O pequeno ser que ela gestou e esteve dentro dela por nove meses, agora veio ao mundo, e está em seus braços, totalmente indefeso.


E então surgem outras novidades como a amamentação, as fraldas, lidar com choros incessantes, cólicas, vacinas. Noites e noites sem dormir, um cansaço físico imenso de um corpo que ainda não se recuperou de todo o processo que viveu, e um amor imenso que começa a surgir e que faz com que tudo isso seja suportado, e depois até aproveitado, e futuramente até olhado com saudades. É um processo intenso, mas que marca de maneira definitiva a vida de uma mulher, em todas as dimensões.


Ser mãe nos coloca diariamente frente a frente com nossos medos e limitações. Os filhos servem inclusive de espelhos para as nossas sombras mais profundas. Olhando para eles percebemos cada aspecto nosso que teima em querer se esconder. Eles escancaram nossas fraquezas, abrem nossas feridas, mostram nossas vulnerabilidades.


No entanto, a maternidade pode ser o maior instrumento de cura também. Nesse planeta a mais potente força é o amor. É ele o maior poder curativo. E o amor de uma mãe por um filho é indescritível, imensurável, inominável, se ela assim se permitir vivenciar tudo isso com muita consciência e com muita honestidade. Sem negar as dores e dificuldades inerentes ao processo, mas também sem deixar passar a sacralidade que envolve tudo isso. Com esse amor ela pode curar as suas dores mais profundas. É um processo contínuo de percepções, reconhecimento, aceitação, resiliência e transformação.


Existem distorções, obviamente. Tudo sempre depende de como cada um escolhe viver o que se apresenta. E sem julgamentos, pois cada um sabe o tamanho da dor que carrega, e certamente faz sempre o melhor que consegue em cada momento. Mas, aqui, quero deixar a mensagem de que, apesar de todas as dificuldades, e também por causa delas, passar por esse processo, pode ser transformador e curador.


São dois novos seres em um único parto, que devem entender que estão, a partir de então, lado a lado crescendo, aprendendo e evoluindo. E errando, e acertando... O processo de aprendizado é assim... Não há de se ter culpa, quando está se agindo com consciência. Não podemos esquecer que cada criança tem exatamente a mãe que precisa para seu processo evolutivo, com todas as suas características, seus defeitos e suas qualidades. Cada um tem seu mapa natal, para colocar isso em um contexto astrológico, com os desafios próprios do seu caminho. A mãe (assim como todo o resto dos personagens da sua vida) apenas espelha os conflitos que já estão lá... Isso não a exime de buscar a excelência, mas dentro do que ela é... Porque é essa mãe que é necessária para essa criança. O Universo sabe melhor que nós... Existe uma ordem cósmica indiscutível, nenhum planeta sai invadindo a órbita do outro... Precisamos confiar que somos a mãe certa para aquele ser... Para o desenvolvimento de ambos...


Minha homenagem a todas aquelas que tiveram a coragem de deixar a sua antiga versão morrer, e fazer renascer uma nova mulher em toda a sua potência. Que sejamos conscientes do papel que nos cabe ao assumir essa grande tarefa! Resgatar a força e a sacralidade desse momento, certamente tornará nossa sociedade mais humana.

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