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  • Foto do escritorCecilia Leite

Cinderela




Esse é um conto de fadas muito rico em simbologia e com várias nuances que poderiam ser exploradas, mas escolhi para esse texto uma das facetas mais marcantes, que diz respeito aos signos opostos, um eixo que sempre trabalha em conjunto.


A história começa com a Gata Borralheira, uma menina que era órfã de mãe, e que após a morte do pai se vê sozinha e, morando com a madrasta e suas duas filhas de um casamento anterior. Ela é o tempo todo insultada, humilhada e explorada. A jovem pura e bonita, é excluída de todas as atividades sociais e encarregada de todo o serviço doméstico. Seus únicos amigos eram os animaizinhos que moravam na região.


Poderíamos aqui fazer algumas associações com o signo de Virgem, pois temos vários elementos que trazem essa referência. Virgem é representado por uma mulher pura e imaculada (no sentido de plena em si mesmo, sem vícios) e tem relação com o trabalho, a prestação de serviços e especialmente as tarefas domésticas. Virgem limpa, alimenta, nutre.


Percebemos na Gata Borralheira, a menina linda e servil, que faz todas as atividades domésticas e que se deixa colocar em uma posição de inferioridade. Isso muitas vezes acontece com o signo de Virgem, seja pela sua natural modéstia, seja por conta da sua crítica excessiva que sempre se julga aquém ou em dívida. Esse é um signo que busca a perfeição e por isso cobra-se muito, e é cobrado, pois muitas vezes é no reflexo do outro que nos defrontamos com nossas questões internas.


Virgem carrega uma solidão, que frequentemente vem da dificuldade de se misturar e da vontade de se manter íntegra, intocada, autossuficiente. A crítica virginiana pode se tornar sabotadora de qualquer autoestima, e pode vir de dentro ou de fora, do meio, e de quem está à volta. Mas como ressoa com o que há internamente, sempre toma uma grande proporção. Virgem cobra-se tanto que muitas vezes se sobrecarrega de trabalho, na tentativa de sentir-se minimamente útil e eficiente.


Curiosamente, os animais de pequeno porte, únicos amigos da Gata Borralheira, também estão sob a regência de Virgem. Também a maneira simples de se vestir denota um traço virginiano. A heroína vive esse arquétipo com bastante intensidade e na sua maneira mais distorcida, desequilibrada., pois há sofrimento.


E o que acontece quando polarizamos em um determinado signo?

Começamos a buscar pelo signo oposto, em uma tentativa de equilibrar aquilo que está em excesso. Essa é uma dinâmica que acontece principalmente quando deixamos o lado mais difícil se expressar, não precisando necessariamente se referir ao signo solar. Onde existir uma ênfase (um planeta ou ponto importante, um stellium, ou outra condição que o coloque em evidência), estamos sujeitos a buscar pelo polo oposto.


No caso dessa história, a Gata Borralheira vira Cinderela em um verdadeiro conto de fadas, tema tipicamente pisciano. A varinha mágica, fada madrinha, príncipe encantado, tudo remete ao mundo de Peixes, que foge da esfera cotidiana e escapa para a fantasia. A vida real é dura demais para esse signo que busca refúgio em um mundo ideal, onde haja encantamento. Para Peixes não valem as leis da matéria, tudo pode acontecer, existe um traço forte de escapismo.


Mas a Cinderela sabe que ao soar das doze badaladas, o encanto se acaba. A realidade bate a porta, e o sonho de princesa termina. Peixes em excesso acaba voltando para Virgem, e o sonho de princesa dá lugar novamente a dura realidade da enteada rechaçada.


O eixo dos signos opostos deve sempre trabalhar em complementaridade, o que nem sempre ocorre, pois pode haver um permanente cabo de guerra entre os dois. Pode-se viver em extremos, manifestando o lado mais desequilibrado de cada polo. Nem sempre os opostos são também, na vida prática, complementares. Frequentemente são antagonistas em conflito o tempo todo. Mas o ideal é que haja o aprendizado de uma conciliação, e que um lado seja sempre temperado com o melhor do outro.


E nessa linda história temos um final feliz. A Cinderela volta para a sua realidade, sem fantasias, mas também sem negar a sua origem nem sua identidade. Quando o príncipe a escolhe para esposa, o faz dentro de um contexto real e objetivo. Só então, ela se torna uma princesa legítima, amada e reconhecida pelos súditos, justamente pelo seu traço humilde. Ela pode servir ao reino sem ser explorada. Não precisa mais fugir correndo do baile com medo de que o encanto se acabe. Conseguiu conciliar Peixes e Virgem, e trazer o sonho para sua realidade.

 

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