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  • Foto do escritorCecilia Leite

João e Maria




Esse é um conto que, por incrível que possa parecer, tem um conteúdo lunar muito proeminente. Existe na atualidade uma glamourização da Lua, frequentemente a associando a sacerdotisas, magias, mistérios, intuições. Não que tudo isso não faça parte dos atributos desse luminar, mas isso está longe de ser a sua única manifestação.


Nessa história, duas crianças (a infância é relacionada a Lua), que não tem mãe e vivem com o pai e a madrasta (a maternidade é outro tema lunar), são abandonadas no meio da floresta com fome (também um tópico ligado à Lua) pois não há recursos suficientes para alimentar a todos. Já nesse pequeno trecho, temos muitos elementos a explorar.


Todos os personagens mostram a completa aridez em que vivem, que se mostra como falta de nutrição física (não há alimento para todos) e psíquica (não existe amparo, carinho, proteção). Essas duas esferas estão profundamente conectadas, e é muito frequente que um distúrbio alimentar esteja associado a carências afetivas.


No caso dessa história temos duas crianças criadas sem a mãe, sem afeto, sem nenhum tipo de acolhimento e de proteção, e temos dois adultos igualmente desprovidos das qualidades lunares, capazes de abandonar os filhos à própria sorte, usurpando para si o pouco alimento disponível. É uma completa escassez de comida, e de carinho, cuidado, afeto. Não existe um núcleo familiar, um ninho protetor.


No desenvolvimento desse conto, as crianças escutam que serão abandonadas e executam um plano para registrar o caminho de volta. Na versão original da história, em um primeiro momento o menino joga pedras brancas que brilham com luar (uma referência quase literal) para marcar a trilha. E eles de fato conseguem voltar, e encontram um pai arrependido. Ou seja, quando a Lua se fez presente, um vestígio de afeto apareceu no coração do pai, e por um momento a harmonia na família (conceito lunar) voltou a existir.


Mas a secura da madrasta novamente começou a envenená-lo, e outra vez tiveram a ideia de abandonar as crianças, dessa vez impedidas de coletar mais pedras. E o menino abriu mão de seu mísero pedaço de pão, para picá-lo e jogá-lo para marcar o caminho. Como se sabe, um pássaro comeu as migalhas e dessa vez não houve a possibilidade de retorno.


No entanto, após dias de muita fome, encontraram uma cabana inteira feita de delícias. Tinha de tudo, doces, salgados, comidinhas para todos os gostos. Ali eles pararam, e fartaram-se. Mas foram presos por uma bruxa má que queria engordá-los para então devorá-los. O primeiro a ser preso em uma gaiola foi João, que recebia uma porção generosa de ração diária, e tinha seu dedinho verificado periodicamente para constatar se ele já estava pronto para o abate.


Aqui temos novamente a relação entre a comida e a falta de afeto. Se anteriormente o conto fez menção a restrição emocional ligada a escassez de alimentos, agora temos a profunda carência manifestada como uma total secura emocional por parte da bruxa impiedosa, que quer compensar seu vazio com um exagero de comidas, engolindo inclusive a própria criança.


Uma das mais frequentes manifestações distorcidas da Lua é justamente os transtornos alimentares. A mãe, a casa e a família são (ou deveriam ser) nossas referências de proteção, pertencimento e nutrição que garantem a nossa sobrevivência. A Lua rege o estômago no corpo físico, e os seios, ambos relacionados a alimentação. É muito comum constatar que, havendo carência, há concomitantemente uma tentativa de compensação que se manifesta como comer excessivamente.


Ou, pelo contrário, pode ocorrer que a pessoa que não recebe afeto, não se julgue merecedora de receber alimentos (e pode ser um processo totalmente inconsciente, como aliás são os temas lunares). Pode haver culpa, autopunição, sentimento profundo de inadequação ou rejeição, e tudo isso pode levar o indivíduo a não conseguir se alimentar. Há os casos ainda em que se juntam as duas tendências, e existe o exagero seguido de purgação.


No caso desse conto, o menino esperto engana a bruxa cega mostrando um ossinho de frango para ela ao invés de seu dedinho. A menina também consegue com muita perspicácia ludibriar a velha e jogá-la dentro do forno. E então comemoraram, abraçaram-se, beijaram-se e encontraram um tesouro com muitas pedras e pérolas (que aliás é outra associação lunar).


E assim, retornam para casa, com os bolsos cheios e o coração alegre, e encontraram seu pai, agora viúvo, muito arrependido, sem ter tido um único minuto de paz desde que os filhos haviam sumido. A secura emocional (representada pela madrasta) havia ido embora. Agora havia um lar de verdade, onde existia afeto e fartura. A Lua voltou a se manifestar de maneira harmoniosa.


Todas as vezes que a comida se torna um tema importante para nós (seja pelo excesso ou pela falta, pela compulsão ou pela preocupação excessiva), é interessante verificar como andam os nossos vínculos emocionais. Como está nossa sensação de pertencimento, nossos relacionamentos familiares, se temos carências... Muitas vezes temos que voltar lá na infância remota para identificar como nos sentíamos naquela época: amados e protegidos, aceitos, nutridos física e emocionalmente? Ou será que havia um vazio que ainda carregamos sem nos dar conta?


Nossa relação com o alimento diz muito sobre como nos nutrimos em todos os âmbitos de nossa vida, como nos cuidamos, o que colocamos em nosso sistema. A Lua em um mapa astrológico pode indicar com muita precisão todos os processos inconscientes que levam a desequilíbrios dessa natureza. Como João e Maria, muitas vezes precisamos passar por fases de restrição, de exagero, compulsão, toda sorte de distorções, até finalmente encontrar a raiz de nossas questões lunares que nos levam a um ponto de equilíbrio. A partir daí, a criança pode voltar a ser feliz, encontrar a segurança no seu lar e no afeto das pessoas próximas., e a relação com a comida se harmoniza.

 

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1 Comment


marta.redda
Feb 14

Adorei o conto! Muito obrigada por compartilhar!😍

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