• Cecilia Leite

Aceitação


Esse é um texto que escrevi para mim mesma... Estando com trânsitos importantíssimos de Saturno, Urano e Plutão, que mexem com todo o meu mapa natal, compreendo que estou em um momento de profunda transformação. E, claro, ela é desencadeada por uma série de eventos desafiadores, que trazem à tona questões que estavam escondidas lá no inconsciente. Muitas vezes precisamos de umas sacudidas da vida para voltarmos nossa atenção para coisas que precisam ser revistas. Em momentos assim podemos escolher qual o caminho a seguir: continuar com os mesmos padrões, reclamar, deixar os acontecimentos nos engolirem assumindo o papel de vítimas, ou aproveitar a maré para refletir e mudar o rumo de certas coisas.


Um dos temas que tem se tornado muito presentes para mim é a aceitação. Existem certas coisas que não podem ser mudadas. Temos uma tendência onipotente de achar que podemos tudo, mas uma pequena e rápida ponderação já nos mostra que muitas coisas são como são, e ponto final. Não adianta brigar com a lei da gravidade por exemplo, nem com o mecanismo fisiológico do nosso corpo, se esquentarmos a água ela vai ferver quando chegar no ponto de ebulição. Na realidade, quanto mais crescemos em consciência, mais nos damos conta de que o Universo é muito maior do que a nossa pequena vontade individual.


E nesse sentido tenho pensado o quanto é inútil e desgastante brigar com certas verdades. Sim, eu sentirei dor durante a minha vida, dor física e dor emocional, porque faz parte do processo de aprendizado e evolução, assim é o caminho de desenvolvimento da alma. É uma ilusão achar que pode-se viver sem passar por dias doloridos e é muito cansativo ficar tentando evitá-los a todo custo. Talvez o melhor seja se entregar a eles e observar o que podem nos trazer. Normalmente são momentos ricos em informações a nosso próprio respeito.


É necessário aceitar que serei julgada, pelas minhas atitudes, pensamentos, e também pela possível ignorância de alguém, que não irá entender minhas motivações simplesmente porque não tem condições de fazê-lo. Não serei amada por todos, sequer serei aceita, pois ninguém é. E isso não deve incomodar, pois é natural. É muita prepotência considerar que serei uma unanimidade.


Preciso aceitar que o que passou deixou marcas, mas passou. O que posso escolher é o futuro e não o passado, e ele depende de como vivo o presente. Quanto mais eu brigar com o passado, mais vou comprometer o meu futuro. O que aconteceu teve sua importância na formação do meu caráter, mas não preciso carregar os escombros comigo para sempre. Compreendi, e posso me libertar. E só conseguirei fazer isso, se aceitar que tudo estava certo, seguiu um fluxo. Se alguém me fez sofrer, foi por desconhecimento, era o que essa pessoa conseguia na época. Ela segue seu caminho de aprendizado, eu sigo o meu. É a vida que ensina, e não eu.


Aceitar também que não serei uma mãe perfeita, nem uma filha perfeita, nem uma mulher perfeita. Porque sou humana e isso é impossível. Meus filhos sofrerão pelas minhas atitudes, sentirão os meus medos e isso terá um impacto na formação deles. Decepcionarei pessoas, cometerei equívocos, magoarei quem eu nunca desejaria magoar. Mas preciso perceber que se estou fazendo o melhor que posso, não há porque carregar culpa de não ser perfeita. Estamos todos em um processo de desenvolvimento, e mesmo quem por ventura eu tenha prejudicado sem ter tido a intenção, estará aprendendo com a situação. Isso não tira a minha responsabilidade pelos meus atos, e nem a colheita das consequências deles. Mas evita que eu paralise por não me considerar à altura dos outros.


Preciso aceitar que tenho limites e existem situações que eu não vou conseguir lidar e resolver. Falharei em muitas circunstâncias, por medo ou por incapacidade. Não sou onipotente, tenho dificuldades, e preciso aprender a assumi-las. É arrogância achar que se pode resolver tudo sozinho, todos precisamos de ajuda e apoio.


Também devo aceitar que pessoas não corresponderão aos meus anseios e expectativas. Elas não são obrigadas a seguirem o meu ritmo, ou a quererem passar pelos processos que eu julgo que seria bom para elas. Quem sou eu para interferir no caminho alheio? Cada um tem o direito de decidir o que quer para si em determinado momento, e a minha opinião sobre isso é irrelevante, na verdade nem deveria existir. É necessário aceitar o posicionamento do outro, e seguir. Sem culpa, sem cobrança, sem ressentimento. Deixo-o livre para ser o que quiser.


Aceitar que não terei a ajuda que gostaria, mas que o Universo me amparará de outras maneiras, talvez até mais significativas do que aquela que minha inconsciente vontade deseja. Não sou eu que tenho que julgar o que cada um poderia ou deveria fazer em meu favor. Isso é egocentrismo e prepotência. Cada um colherá os frutos das próprias ações e isso é a vida que cuida, e não eu. Além do mais, todos temos nosso caminho a seguir, necessidades de aprendizados próprias, e é preciso confiar na sabedoria cósmica que coloca cada um frente as situações que precisa enfrentar.


É preciso aceitar que o tempo de cada um é diferente, e que quanto mais se cresce em consciência mais sozinho se fica, pois menos pessoas pensarão da mesma forma. É um preço que se paga por querer sair do sistema vigente e abrir os horizontes. Pouquíssimos compreenderão, e menos ainda irão ter a disposição de acompanhar. Mas haverá outras recompensas, e o que estiverem próximos terão mais afinidade, e os relacionamentos poderão ser mais verdadeiros e satisfatórios.


Devo aceitar que eu fico triste, tenho medo, sinto angústia, sinto raiva, e assim é. Ficarei incomodada, tentarei fugir das sensações, emoções irão me desestruturar, até que eu desista de resistir e simplesmente as sinta e deixe passar. E os outros também terão essa gangorra emocional, e eles têm esse direito. Se eu quero paz, preciso aprender a cultivá-la mesmo durante as tormentas que sempre vão acontecer. O mundo não será do jeito que eu gostaria.


Aceitação não significa submissão e nem resignação. Em muitas situações é necessário que se seja proativo a às vezes até combativo. Mas refiro-me aqui às circunstâncias onde resistir é inútil, e apenas gasto desnecessário de energia. Existem verdades que não podem ser contestadas, e lutar contra elas é um desgaste inútil. É sinal de amadurecimento e sabedoria discernir o que deve envolver um esforço de mudança e o que precisa simplesmente ser aceito. No meu caso percebo que ando em falta com a aceitação, e se conseguir incorporá-la mais em minha vida, ela fluirá com muito mais leveza.


Repeti a palavra aceitar inúmeras vezes, e mesmo que não fique bonito esteticamente, essa repetição serve como um mantra, para que fique claro para mim, como é importante parar de brigar com a vida e simplesmente seguir. Quando aceitamos o que se apresenta, conseguimos perceber a beleza e as bênçãos que estavam escondidas por trás da nossa resistência. A nossa perspectiva aumenta, e abrimos espaço para um novo jeito de viver.


Vou publicar esse texto, porque talvez alguém, assim como eu, esteja precisando refletir sobre esse tema. Que a aceitação nos traga leveza e libertação!

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